segunda-feira, 29 de Junho de 2009

'Heróis de Verdade' - Cuidado com os burros motivados!


A revista ISTO É publicou esta entrevista de Camilo Vannuchi. O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.


Em 'Heróis de Verdade', o escritor combate a supervalorização das aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.

ISTO É - Quem são os heróis de verdade?

Roberto Shinyashiki -- Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe.
O mundo define que poucas pessoas deram certo.
Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.
E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados.
Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu à pena, porque não conseguiu ter o carro, nem a casa maravilhosa.
Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa, possa se orgulhar da mãe.
O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes.
Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros.
São pessoas que sabem pedir desculpas e admitiram que erraram.

ISTO É -O Sr. citaria exemplos?

Shinyashiki - Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia.
Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis.
Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem.
Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito '100% Jardim Irene'.
É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes.
O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana.
Em países como o Japão, a Suécia e a Noruega, há mais suicídio do que homicídio.
Por que tanta gente se mata?
Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher, que embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego, que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTO É -- Qual o resultado disso?

Shinyashiki -- Paranóia e depressão cada vez mais precoce.
O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece.
A única coisa que prepara uma criança para o futuro, é ela poder ser criança.
Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos.. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas.
Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTO É - Por quê?

Shinyashiki - O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento.
É contratado o sujeito com mais marketing pessoal.
As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência.
Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras.
Disse que ela não parecia demonstrar interesse.
Ela me respondeu estar muito interessada, mas como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas.
Contratei-a na hora.
Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTO É - Há um script estabelecido?

Shinyashiki - Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa 'O Aprendiz'?
- Qual é seu defeito?
Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
- Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.
É exatamente o que o Chefe quer escutar.
Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido?
É contratado quem é bom em conversar, em fingir.
Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse:
'Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir'.
Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor!

ISTO É - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Shinyashiki - Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento.
Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência.
Cuidado com os burros motivados.
Há muita gente motivada fazendo besteira.
Não adianta você assumir uma função, para a qual não está preparado.
Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão.
Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso, para o qual eu não estava preparado.
Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia.
O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTO É - Está sobrando auto-estima?

Shinyashiki - Falta às pessoas a verdadeira auto-estima.
Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa.
Antes, o ter conseguia substituir o ser.
O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.
Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser, nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.
As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam.
E poucos são humildes para confessar que não sabem.
Há muitas mulheres solitárias no Brasil, que preferem dizer que é melhor assim.
Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTO É - Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Shinyashiki - Isso vem do vazio que sentimos.
A gente continua valorizando os heróis.
Quem vai salvar o Brasil? O Lula.
Quem vai salvar o time? O técnico.
Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.
O problema é que eles não vão salvar nada!
Tive um professor de filosofia que dizia:
'Quando você quiser entender a essência do ser
humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham'. Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia.
Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo.
A gente tem de parar de procurar super-heróis, porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTO É - O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Shinyashiki - Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado.
A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza.
Não há nada de errado nisso.
Hoje, as pessoas estão questionando o Lula, em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram.
A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTO É - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Shinyashiki -Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente.
Há várias coisas que eu queria e não consegui.
Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos.
Com uma criança especial, eu aprendi que, ou eu a amo do jeito que ela é, ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse.
Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo.
O resto foram apostas e erros.
Dia desses apostei na edição de um livro, que não deu certo.
Um amigão me perguntou:
'Quem decidiu publicar esse livro?'
Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTO É - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

Shinyashiki - O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las.
São três fraquezas:
A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.
Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno.
Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.
Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates.
O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTO É - Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

Shinyashiki - A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade...
A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se eles não tivessem significados individuais.
A segunda loucura é:
Você tem de estar feliz todos os dias.
A terceira é:
Você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo.
Por fim, a quarta loucura:
Você tem de fazer as coisas do jeito certo.
Jeito certo não existe.
Não há um caminho único para se fazer as coisas.
As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.
Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.
Tem gente que diz que não será feliz, enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo à praia ou ao cinema..
Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais.
Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.
A maior parte pega o médico pela camisa e diz:
'Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei à vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz'.
Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.
Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.


Uma boa reflexão para o Brasil, Portugal e resto do Mundo...

segunda-feira, 6 de Abril de 2009

A FOME, A CORRUPÇÃO E OS LUXOS...


            Portugal precisa de jactos executivos

               para transporte de governantes?




Pronto! Finalmente descobrimos aquilo de que Portugal realmente precisa: uma nova frota de jactos executivos para transporte de governantes. Afinal, o que é preciso não são os 150 mil empregos que José Sócrates anda a tentar esgravatar nos desertos em que Portugal se vai transformando. Tão-pouco precisamos de leis claras que impeçam que propriedade pública transite directamente para o sector privado sem passar pela Partida no soturno jogo do Monopólio de pedintes e espoliadores em que Portugal se tornou. Não precisamos de nada disso.
Precisamos, diz-nos o Presidente da República, de trocar de jactos porque aviões executivos "assim" como aqueles que temos já não há "nem na Europa nem em África". Cavaco Silva percebe, e obviamente gosta, de aviões executivos. Foi ele, quando chefiava o seu segundo governo, quem comprou com fundos comunitários a actual frota de Falcon em que os nossos governantes se deslocam.
Voei uma vez num jacto executivo. Em 1984 andei num avião presidencial em Moçambique. Samora Machel, em cuja capital se morria à fome, tinha, também, uma paixão por jactos privados que acabaria por lhe ser fatal.
Quando morreu a bordo de um deles tinha três na sua frota. Um quadrimotor Ilyushin 62 de longo curso, versão presidencial, o malogrado Antonov-6, e um lindíssimo bimotor a jacto British Aerospace 800B, novinho em folha. Tive a sorte de ter sido nesse que voei com o então Ministro dos Estrangeiros Jaime Gama numa viagem entre Maputo e Cabora Bassa. Era uma aeronave fantástica. Um terço da cabina era uma magnífica casa de banho. O resto era de um requinte de decoração notável. Por exemplo, havia um pequeno armário onde se metia um assistente de bordo magro, muito esguio que, num prodígio de contorcionismo, fez surgir durante o voo minúsculos banquetes de tapas variadíssimas, com sandes de beluga e rolinhos de salmão fumado que deglutimos entre golinhos de Clicquot Ponsardin. Depois de nos mimar,
como por magia, desaparecia no seu armário. Na altura fiz uma reportagem em que descrevi aquele luxo como "obsceno". Fiz nesse trabalho a comparação com Portugal, que estava numa craveira de desenvolvimento totalmente diferente da de Moçambique, e não tinha jactos executivos do Estado para servir governantes.
Nesta fase metade dos rendimentos dos portugueses está a ser retida por impostos. Encerram-se maternidades, escolas e serviços de urgência. O Presidente da República inaugura unidades de saúde privadas de luxo e aproveita para reiterar um insuspeitado direito de todos os portugueses a um sistema público de saúde. Numa altura destas, comprar jactos executivos é tão obsceno como o foi nos dias de Samora Machel. Este irrealismo brutalizado com que os nossos governantes eleitos afrontam a carência em que vivemos ultraja quem no seu quotidiano comuta num transporte público apinhado, pela Segunda Circular ou Camarate, para lhe ver passar por cima um jacto executivo com governantes cujo dia a dia decorre a quilómetros das suas dificuldades, entre tapas de caviar e rolinhos de salmão. Claro que há alternativas que vão desde fretar aviões das companhias nacionais até, pura e simplesmente, cingirem-se aos voos regulares. 
Há governantes de países em muito melhores condições que o fazem por uma questão de pudor que a classe que dirige Portugal parece não ter.
Vi o majestático François Miterrand ir sempre a Washington na Air France. Não é uma questão de soberania ter o melhor jacto executivo do Mundo. É só falta de bom senso. E não venham com a história que é mesquinhez falar disto. É de um pato-bravismo intolerável exigir ao país mais sacrifícios para que os nossos governantes andem de jacto executivo. Nós granjearíamos muito mais respeito internacional chegando a cimeiras em voos de carreira do que a bordo de um qualquer prodígio tecnológico caríssimo para o qual todo o Mundo sabe que não
temos dinheiro.

Artigo de Mário Crespo ao JN de 01/04/09

Um artigo a que junto o meu aplauso...
Para que este não caminhe sozinho acrescento mais este pequeno "mimo" de Gabriel Garcia Marques no seu fabuloso livro "O Outono do Patriarca":

"- Os pobres hão-de estar sempre tão fod***s que no

dia em que a merda tiver valor hão-de nascer sem cu."  


quinta-feira, 5 de Março de 2009

O DESVIO



As sociedades e as suas culturas impõem normas-padrão de relacionamento entre indivíduos pretendendo, assim, controlar as tensões que, sem essas regras, poriam em risco a sobrevivência colectiva quer em termos de segurança quer em termos de valores morais.

Apesar de constrangedor o respeito pelas normas é um garante que permite a continuidade de todo um conjunto de práticas sociais que asseguram a paz e a coesão dos grupos que têm na família o seu núcleo central. Por essa razão, a desestruturação familiar e o aparecimento de novos paradigmas de família têm incorporado um sem número de desajustamentos que vão da solidão acentuada dos mais velhos às dificuldades de adaptação dos mais jovens ao ambiente escolar e a uma forma saudável de construir um futuro baseado no amor e no respeito mútuo.

O encontro do ponto de equilíbrio em que o indivíduo pode ganhar o seu espaço de liberdade e criatividade descobrindo e reclassificando erros e maus passos sem perder o pé no mar encrespado duma sociedade atenta ao julgamento e à punição, é uma tarefa gigantesca da qual resulta a vida vivida, ou a vida negada, consoante a maior ou menor aproximação ao desiderato atrás referido.

Frequentemente o saldo é desajustado e é o sofrimento e as facturas cobradas, o preço que pagam todos aqueles que enveredaram pela loucura de um bater de asas num sol que os ofuscou não deixando ver as paisagens para além da luz.

São estes os alvos fáceis para sociedade constrangedora que aponta e que não se apieda. Há como que uma necessidade de ressarcir antigas frustrações porque mais ou menos todos sonham saltar os muros mas a poucos são dadas a loucura e a coragem para o conseguirem. É como que uma necessidade de punir quem foi capaz de chegar mais perto do sol. Como se quem voa fosse necessariamente um Ícaro vaidoso e insensato.

As sociedades que se complexificam com as suas normas encontram, frequentemente, nos desvios a razão dos males para as decomposições cíclicas que sempre experimentam para manterem activa a sua racionalização. É mais fácil crucificar que apoiar. Crucificar é como possuir uma auréola de poder que escalona mais-valias e dá retornos de superioridade. O apoio tem custos que vão da entrega humana à conotação com modus vivendi que a conduta pretende demarcar.

Também aqui o ponto de equilíbrio é difícil de encontrar. De um lado temos quem abdicou de um bater de asas mas que sempre sonhou e em silêncio invejou quem procurou a luz e, do outro lado, o caminhante que foi de punho aberto num caminho sem retorno. Ambos são espécie humana mas como fazer o encontro destas vontades?

Ambos têm direito às suas escolhas e, frequentemente, os desviantes exigem a quem os sustentou com a firmeza das regras, que os aceitem como seus com os seus infortúnios e os seus fracassos. É como conceder-lhes um duplo privilégio que consiste em deixá-los voar e aparar-lhes a queda renegando os sonhos que têm também os que não se desviaram e ficaram com calos nas mãos a construir caminhos.

terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

UM NOVO OLHAR SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE





A homossexualidade não é um defeito nem prejudica as sociedades.

Nenhum mal vem para os seus valores, e respeito mútuo, o facto de haver diferentes formas de realização emocional na esfera privada do indivíduo.


Encontram-se no universo homo pessoas de suprema sensibilidade e inteligência que enriquecem um património humano depauperado pelo individualismo e pela ganância e que são frequentemente estigmatizadas.


Dum blogue que frequento retirei este testemunho: “Durante alguns anos fui dador de sangue. O posto onde rotineiramente me apresentava para entrega da minha dádiva era o Serviço de Sangue do Hospital Curry Cabral em Lisboa. (…) Nesse serviço a minha homossexualidade era conhecida dos vários clínicos que me atendiam na consulta de prévia de rastreio. Nunca tal circunstância era obstáculo à minha entrega periódica do meio litro de meu Rh O negativo; que segundo fiquei a saber era raríssimo e muito necessário. (…) Certo dia foi para esse Serviço de Sangue uma médica jovem (…) que ao saber da minha homossexualidade (…) recusou a minha dádiva, afirmando: “Vocês homossexuais, apenas vêm dar sangue para terem análises grátis de despiste do VIH! Recuso-me a aceitar sangue dum homossexual.”Minha estupefacção perante tão vil insulto e tamanha insensibilidade, deixou-me completamente mudo e incrédulo. (…) Depressa abandonei as instalações pois a revolta pelo ultraje apenas me dava vontade de chorar. Já cá fora, ao atravessar o jardim rumo ao portão de saída do hospital, ouvi gritar o meu nome. Era a directora do Serviço de Sangue quem me chamava, correndo em minha direcção. Pediu-me perdão pelo sucedido e para voltar com ela ao Serviço de sangue. Aí ela mesma me atendeu e autorizou a minha doação, tendo ainda me rogado insistentemente que não deixasse de dar sangue e que sempre que me apresentasse na recepção informasse a assistente de serviço que não queria ser atendido pela Drª Mariazinha, pois outro médico me atenderia sem problemas. (…) Este caso singular naquela instituição foi uma nódoa que poderia ter manchado a reputação modelar da mesma. Chamo de modelar as normas pela qual se regia (só me refiro ao tempo em que lá recorria para doar sangue, mas espero e acredito, que ainda assim continue) o Serviço de Sangue do Hospital Curry Cabral, uma vez que noutras unidades de saúde hospitalares sempre presenciei uma homofobia doentia e encarniçada para com os pretendentes dadores homossexuais. E passo a citar alguns onde tive de omitir a minha homossexualidade para poder prestar o meu auxílio ao próximo, pois logo à entrada me era distribuído um folheto onde grosseiramente se lia que a dádiva estava interdita a homossexuais: Hospital Nossa Senhora do Rosário (Barreiro), Hospital Garcia de Horta (Almada), Hospital de São Francisco Xavier (Lisboa). Estes os casos que testemunhei pessoalmente, mas acredito que muitos mais haverá ainda por esse país fora.(…) ManDrag yThén”


Por este relato, e por outros a que voltarei em altura própria, só posso congratular-me com a apresentação, por parte de José Sócrates, da intenção de, no próximo mandato, permitir os casamentos gays. Independentemente de vir ou não a ser reeleito, o PM colocou o enfoque no que poderá vir a ser um passo fundamental para que exista uma maior equidade dos cidadãos perante a lei e para a aceitação da diferença condição indispensável ao nosso desenvolvimento e maturidade humanos.

quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

O que é que custa quase 4600 € o litro e nem é para beber?


Resposta: TINTA DE IMPRESSORA!  


JÁ TINHAM FEITO O CÁLCULO?  


Vejamos!

Já nos acostumámos aos roubos, é o que é...

Há não muito tempo, as impressoras eram caras e

barulhentas. Com as impressoras a jacto de tinta, o mercado

doméstico mudou, pois fomos seduzidos pela qualidade,

velocidade e facilidade dessas novas impressoras.

Aí veio a grande golpada dos fabricantes: oferecer

impressoras cada vez mais baratas, e fazer tinteiros cada

vez mais caros.

Uma HP DJ3845 vendida nas principais lojas por 70 € vem

com um conjunto de tinteiros.

A reposição dos dois tinteiros (10 ml o preto e 8 ml o de cor),

fica à volta de 45 €.

Nos modelos mais baratos, o conjunto de tinteiros pode

custar mais do que a própria impressora.

Olhem o absurdo: Pode acontecer que valha mais trocar a

impressora do que fazer a reposição dos tinteiros!

Para piorar, de uns tempos para cá passaram a DIMINUIR

a quantidade de tinta (mantendo o preço).

As impressoras HP1410 e 3920 que usam os tinteiros HP 21

e 22, vêm agora com tinteiros só com 5 (cinco) ml de tinta!

Um Cartucho HP, com uns míseros 10ml de tinta custa 19 €.

Isto dá 1.9€ por mililitro.  

Só para comparação, Champagne Veuve Clicquot City Travelle

custa por mililitro 0.43 €.

A Lexmark vende um tinteiro para a linha de impressoras X,

o tinteiro 26, com 5,5 ml de tinta de cor por 25 €.

Fazendo as contas:

1000ml / 5.5ml = 181 tinteiros x 25 € = 4525 €.

4525 € por um litro de tinta!

Com este valor podemos comprar aproximadamente:

 - 300gr de OURO;

 - 3 TVs de Plasma de 42';

 - 45 impressoras que utilizam este tinteiro;

 - 4 notebooks;

 - 8 Micros Intel com 256 MB.

Melhor de tudo, alimentava muitas bocas esfomeadas!

Ou seja, um assalto!

Banqueiros e multinacionais são idênticos…

Indignados?  

sábado, 13 de Dezembro de 2008

Estatísticas e Análises de Mercado...


«Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»


Thomas Jefferson, 1802


"Será que tanto tempo depois, alguém descobriu algo de novo?"

 

segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

RELAÇÃO DA CRIANÇA COM A TV



Tem sido tema de várias discussões os efeitos a que a televisão provoca nas crianças que passam muito tempo em frente á mesma. Todos sabemos que muitas vezes a educação das crianças está a ser feita pela televisão com as desvantagens e perigos que acarreta semelhante atitude , as crianças absorvem tudo o que vêm não tendo na maioria das vezes capacidade para decifrar o que estão a visualizar não descodificar o que é certo e o que é errado, Tanya Byron uma renomada psicóloga clinica do Reino Unido em conjunto com um Canal de TDT Freeview levou a efeito um estudo que mostra algumas consequências nas crianças expostas demasiado tempo á televisão. Nem tudo é mau na televisão, existem programas educativos que podem ser importantes no seu desenvolvimento intelectual , mas tem efeitos nefastos quando as os programas tem conteudos violentos e agrassivos . Este estudo dá pistas de como podem as crianças utilizar a televisão ( sob supervisão dos adultos) de uma forma saudável.

Joy

sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

PARA MEDITAR



Não estimes o dinheiro nem em mais nem em menos do que aquilo que vale, porque ele é um bom servo e um mau amo.

- Alexandre Dumas -


Vivemos tempos conturbados de materialismo exacerbado, de ódio, de intriga e de inveja. E tudo em nome duma competitividade exacerbada que, ao invés do desenvolvimento e do progresso, tem trazido a solidão e a mágoa.

Mesmo aqueles que obtiveram impérios retirando o pão da boca dos que ficaram sem emprego, enfrentam uma exclusão interior num universo de falsidade onde tudo é efémero.


Só os valores da solidariedade e da justiça criam afectos que nos acompanham.

sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

DUAS REALIDADES

Reformas dos políticos custam 8,3 milhões


A despesa pública com as pensões vitalícias dos ex-titulares de cargos políticos irá ascender a 8,35 milhões de euros, em 2009. Com o universo de beneficiários a atingir já um número na ordem de 383 pessoas, a verba orçamentada para pagar reformas para toda a vida aos políticos no próximo ano, como prevê a proposta do Orçamento do Estado para 2009, representa um crescimento de 3,2 por cento face aos oito milhões de euros orçamentados para 2008.


Metade da população já passou por situações de pobreza

Quase dois milhões de portugueses vivem em risco de pobreza. Desemprego, velhice, doença e os baixos salários são as principais causas que ditam o infortúnio de quem tem apenas 366 euros, ou menos, para sobreviver.

Aos factores endémicos, junta-se, agora, a voragem impiedosa de uma crise financeira internacional que, nos últimos meses, já começou a fazer vítimas: os "novos pobres". Pessoas com um ordenado fixo, mas cujo rendimento não chega para satisfazer as necessidades do agregado familiar.
O fenómeno atinge cada vez mais pessoas que tradicionalmente estavam fora das bolsas de pobreza. "A partir dos anos 90, começou a surgir a nova pobreza urbana", explicou José Lúcio, docente do mestrado em Gestão do Território, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. "Pessoas tradicionalmente não pobres, que devido a alterações económicas da sociedade começaram a entrar em situações de pobreza".

Gente que passa pela pobreza, mas que não é pobre, sublinha o professor universitário. "Um indivíduo pode conhecer um ciclo de pobreza, que pode não ser permanente, nem de longa duração", explica. Entre 1995 e 2000, 46% do portugueses passaram pela pobreza, em pelo menos um dos anos, refere Alfredo Bruto da Costa, no livro "Um olhar sobre a Pobreza, vulnerabilidade e exclusão social no Portugal Contemporâneo". "Quer isto dizer que uma elevada parte da população portuguesa é vulnerável à pobreza, mesmo que, em dado momento, não seja pobre", lê-se na obra do presidente do Conselho Económico e Social.

E apesar do risco de pobreza ser mais acentuado para os desempregados (31%) do que para as pessoas que têm trabalho (11%), verifica-se que a maioria dos pobres são trabalhadores por conta de outrem (30,8%) ou por conta própria (18%), reformados (21,6%) e domésticas (11%).

Os baixos salários, o fraco nível educativo e a falta de qualificações explicam este cenário. A par da actual crise financeira, com a consequente subida das taxas de juro para o crédito à habitação, que tem feito chegar às bolsas de pobreza gente, até hoje, imune a privações.

"As pessoas que apoiamos, actualmente, são diferentes", explicou Zelmina Pinto, psicóloga da Fundação Filos. "Antes, eram mais famílias problemáticas, com baixos níveis de escolaridade, enquanto que, agora, apoiamos cada vez mais famílias da classe média que não conseguem pagar as casas", conta.

O desemprego e a subidas das taxas de juro são as principais causas que conduzem ao pedido de auxílio e ao Rendimento Social de Inserção.

terça-feira, 30 de Setembro de 2008

O PESADELO AMERICANO E A MORTE DUM MITO

Para quem defende que os mercados se auto-regulam e vê no neo-liberalismo um modelo a seguir, certamente que os colapsos dos mercados financeiros e as consequências dramáticas com efeito dominó, darão matéria mais que suficiente para reflectirem sobretudo se não fazem parte daquela elite privilegiada sempre com defesas e recursos a que a maioria dos mortais não tem acesso.
O texto que a seguir transcrevo, retirado da BBC, espelha claramente a outra face da moeda que muitos insistem em ocultar nas suas defesas acérrimas aos modelos de privatização de serviços públicos de cariz social e na consequente morte do Estado-Providência.

“A cidade de Santa Bárbara se orgulha de seu estilo de vida tipicamente californiano, com praias, cafés e uma charmosa arquitetura de estilo espanhol.

É claro que tudo tem um preço robusto: localizadas entre as montanhas de Santa Ynez e o Oceano Pacífico, estão casas que valem milhões de dólares.
Mas, mesmo nesta ensolarada enseada de riquezas, muitos vivem longe do sonho norte-americano.

Em um estacionamento no lado oposto de uma rua de mansões luxuosas, a noite traz uma estranha visão.

Alguns carros chegam e estacionam nos cantos do terreno. Dentro de cada carro, mulheres, talvez alguns animais de estimação e malas cheias de coisas e roupas de cama.

A poucos metros de casas com quartos ociosos, estão os habitantes de Santa Bárbara que são obrigados a dormir em seus carros.

Sem-teto há pouco mais de um ano, eles são uma conseqüência direta do colapso do mercado imobiliário norte-americano.

Casas 4x4
Neste estacionamento apenas para mulheres, Bonnee (que revela apenas seu primeiro nome), usa um vestido azul e tem um comportamento de mulher de negócios.

Um ano atrás, ela vivia como, ironicamente, uma corretora de imóveis. Mas, quando as pessoas pararam de comprar casas, seu salário, baseado em comissões, secou e, como muitos clientes, ela não conseguiu pagar sua hipoteca.

De repente, ela se achou sem lugar para morar a não ser seu 4x4.
Pilhas de cobertores estão no porta-malas do veículo. Documentos pessoais estão nos compartimentos ao lado dos bancos. Uma caixa de maquiagem e uma carteirinha de uma academia de ginástica (onde ela toma banho) estão na frente. Com ela, constantemente, estão fotos de sua antiga vida.

Ela não consegue acreditar em sua situação.

"Meu Deus, o coração da América está sangrando", diz.
Lágrimas começam a sair de seus olhos.
"Eu sei que as coisas vão ficar melhores, mas é triste. Eu realmente lutei muito".

Um outro 4x4 entra no estacionamento e Barbara Harvey, de 67 anos, desce do carro.
Ela abre o porta-malas e dois grandes cães da raça golden retriever saem.
Barbara começa sua rotina noturna. Ela pega algumas de suas malas e tira um pijama e iogurtes (seu jantar). Ela então arruma cobertores na parte de trás do carro.

Barbara também costumava trabalhar com o financiamento de imóveis. Mas, desde abril, ela e seus cães, Ranger e Phoebe, passam todas as noites em seu carro. É apertado, mas ela diz que se ela dormir na diagonal, todos cabem dentro do veículo.

Nova tendência?
O estacionamento deixa as pessoas que dormem em carros entrarem a partir das 7h da noite, mas os banheiros públicos fecham com o pôr-do-sol.
Como resultado, Barbara diz que não bebe nenhum líquido depois que ela chega. De manhã, ela toma banho na casa de um amigo.

Vestida com roupas limpas e confortáveis e usando óculos escuros, ela não se parece em nada com o estereótipo do sem-teto.

"Vai começar a haver um monte de indivíduos que são de classe-média, mas que não podem comprar nada. Nós estamos em uma terrível confusão econômica. Acho que ainda não vimos nem metade do que vai acontecer com este país", diz Barbara.

Este novo fenômeno de sem-teto de classe média é difícil de quantificar, mas a New Beginnings, uma organização que cuida do sistema de estacionamentos-dormitórios em Santa Bárbara, diz que acomoda cerca de 55 pessoas em seis estacionamentos.

A assistente social Nancy Kapp, ela também uma ex-sem-teto, afirma que há uma lista de espera para espaço nestes estacionamentos e que ela recebe cada vez mais ligações de pessoas que estão para perder suas casas.

Ela diz que um novo tipo de sem-teto está surgindo nos EUA.

Pesadelo americano
"Ser pobre é como um câncer, agora este câncer está atingindo a classe-média", ela explica. "Não importa o quão forte você seja, é uma quebra na psique humana quando você começa a perder tudo que tem".

"Estas pessoas trabalharam a vida inteira para terem uma casa e agora tudo está desmoronando. Isto não é o sonho americano, é o pesadelo americano", diz Nancy.

Os preços de casas na Califórnia caíram 30% do início do ano até maio. Poucos lugares nos Estados Unidos foram tão atingidos.

Mas grupos imobiliários norte-americanos dizem que o aumento dos sem-teto nos EUA começou com o início da crise, no ano passado.

Vida em trailer
Em outro estacionamento em Santa Bárbara, Craig Miller, sua mulher Paige, e seus dois filhos dizem que se sentem apertados no pequeno trailer onde eles têm vivido por meses.

"É difícil manter as coisas limpas", diz Paige. "É difícil se sentir completo".
Originalmente da Flórida, a família cruzou os Estados Unidos para começar uma nova vida na Califórnia. Mas, incapazes de encontrar trabalho em tempo integral e incapazes de pagar aluguel, nas palavras de Craig, eles ficaram "presos".

Ele diz que, no início, era como férias, mas agora tudo está muito duro.
"Conseguir dinheiro para comida não é uma coisa na qual tínhamos que pensar antes", diz Miller.

"Nós esperamos conseguir sair daqui e conseguir um lugar para ficar. Estamos trabalhando duro para isso. Esta é apenas uma situação, não nosso destino".

Quando vai ficando escuro em Santa Bárbara, aqueles que dormem em carros se preparam para mais uma noite.

Mas todos precisam acordar cedo: não é permitido ficar lá depois das 7h da manhã.

Alguns trabalham, outros passam o dia dirigindo de um lugar para o outro.
Quando a noite cai de novo, eles voltam para o estacionamento.

Comparado com sem-teto de outros países e mesmo outros americanos, estes ainda têm sorte.

Mas se a crise económica piorar, podem aparecer mais deles?”